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Carta às Ancestrais - Portal Geledés

Escrevo essas palavras num mix de emoções… Ao mesmo tempo em que as escrevo sentido o peso do amor, da ternura e da força das minhas ancestrais. Escrevo essas linhas com a sensação de que, em certo ponto, falhamos com nossas Yabás, mas seguimos tentando, lutando e perseverando, regidas pelo espírito delas.

Reprodução/ Facebook Awurê Orixá

Mesmo confusa sobre o que sentir, escrevo essa carta a elas, certa de que serei ouvida.

Nossas ancestrais, que são para nós como grandes Baobás, robustas e indestrutíveis, viveram numa época em que sua força tinha que ser subliminar e sussurrada. Elas, que carregavam em suas memórias, a história do nosso povo e as nossas tradições, não podiam ocupar o seu protagonismo nessas narrativas, mesmo sendo elas as protagonistas.

Nossas ancestrais, viveram num tempo marcado pela segregação, racial e de gênero. Viveram num tempo em que eram “o outro do outro”, como pontuado por Grada Kilomba. Mas foram resistentes e pacientes, porque sabiam que, assim como o majestoso Baobá, as suas sementes brotariam lindamente em nós, as gerações futuras.

Nossas ancestrais, sábias que só, previam que os anos de silêncio forçado, regados à suor, dor e luta, seriam recompensados mais pra frente, com essa legião de mulheres encharcadas de bravura e destemor.

A elas, muito obrigado!

Escrevo essas linhas, destinada não somente as minhas ancestrais, mas as ancestrais de todas nós, com o coração repleto de coragem e amor. Queria dizer a elas que todos os anos em que prepararam o terreno para que nós pudéssemos revolucionar as estruturas patriarcais, racistas e capitalistas, não foram em vão. Vocês foram fortes, aguentaram firme, mesmo com o corpo dilacerado.

Sorriram quando não havia motivos para sorrir. Resistiram quando o corpo marcado pela idade e pelo cansaço, insistia em desabar.

– Mas vocês se mantiveram firmes como aquele Baobá!

Essas palavras, carregam o peso da luta iniciada anos atrás por vocês, que foram valentes o bastante para plantar um futuro menos sofrido para nós. Mesmo num mundo que retirou a afetividade de vocês, hoje colhemos com doçura o amor que permeia essa linha do tempo que nos conecta a vocês.

Saibam, Yabás, que nós entendemos o significado de todo o sangue e suor derramado neste solo por vocês. Ainda sentimos o gosto amargo em nossas bocas, a cada obstáculo que enfrentamos, a cada retrocesso do mundo ou em cada vez que as montanhas do Sexismo, machismo e racismo se elevam sobre nós. E então, como um mantra, repetimos:


“Me levanto

sobre o sacrifício

de um milhão de mulheres que vieram antes

e penso:

O que é que eu faço

para tornar esta montanha mais alta

para que as mulheres que vierem depois de mim

possam ver além?”

Rupi Kaur

Dessa forma, escrevo essas linhas sabendo que as montanhas que vocês enfrentaram eram mais altas, mais assustadoras e difíceis de atravessar. Mas vocês atravessaram ou talvez as tenham removido? Vocês, que vieram antes de nós, correram com os Lobos e sopram em nossos ouvidos que nossa versão mais bruta e selvagem ainda está aqui. Ela só precisa ser libertada!

– Nós ouvimos e estamos em formação!

Vocês, que andaram mais rápido que o vento, sopram em nossos ouvidos toda vez que precisamos de um conselho. Nós demos o nome de intuição!

Assim, seguindo a voz de Maya Angelou, gritamos juntas:

“Eu me levanto Trazendo comigo o dom de meus antepassados, 

Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado. 

E assim, eu me levanto Eu me levanto Eu me levanto”


Seguiremos nos levantando, munidas pela força milenar de vocês, ancestrais, que mesmo diante da dor da perda de um ente querido para morte seguiram firmes.

A vocês, que resistiram e aguentaram o ardor das chibatas, que sangraram, choraram, lutaram, nós só podemos dizer “Não foi em vão”.

A todas vocês, que como George Floyd, “NÃO CONSEGUIU RESPIRAR”, nós dizemos “Seguiremos respirando (e gritando) a plenos pulmões. 

NÓS QUEREMOS RESPIRAR!

A todas as ancestrais, que neste momento olham pra nós lá de cima, saibam que seguiremos munidas pela força de vocês!

Queremos, neste momento de revolução, pedir que vocês soprem grandes ventanias. Ventos de mudança, pois a mudança está vindo e ela é UMA MULHER PRETA!

Benção, Yabás!

Fonte: GELEDÉS

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