Jessy Kerolayne Gonçalves Conceição *
(Universidade Federal Fluminense, Brasil)
Fig. 1 - Jacques Etienne Arago, Castigo de Escravos, 1839. litografia aquarelada sobre papel (sem dimensões definidas) (Fonte: Coleção Museu AfroBrasil)RESUMO: Em 1968, a Igreja do Rosário, localizada no subúrbio carioca. montou
uma exposição em homenagem aos 80 anos de Abolição da Escravatura, revelando
entre as obras expostas a litografia Castigo de Escravos. A imagem carrega uma
figura feminina de olhos fixos que nos encaram, enquanto em sua boca leva uma
espécie de mordaça, conhecida como máscara de flandres. Ganhando apreço de
religiosos, hoje ela é afamada como a Escrava Anastácia. Não se sabe ao certo a
biografia oficial da escrava, o que nos diz respeito a profundas tentativas de silenciamento. O intuito do presente artigo é trazer uma análise através das biografias
e imagem de Anastácia, do ponto de vista da teórica e artista Grada Kilomba e
dos trabalhos da artista visual Rosana Paulino. Ambas resgatam a imagem de
Anastácia e a máscara de flandres para o campo simbólico de maneira a criar uma
metáfora sobre os processos de colonização, silenciamentos e como os resquícios
dessa violência nos afeta até os dias atuais.
A máscara não pode ser esquecida
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A litografia Castigo de Escravos, produzida pelo explorador Jacques Etienne Victor Arago em sua passagem pelo Brasil no século XIX, é a imagem que deu rosto e margem para a história da escrava Anastácia. Sendo ou não uma criação do imaginário popular, o fato é que o que a envolve nos diz muito a respeito dos apagamentos e silenciamentos, buracos históricos causados pelos processos brutais de colonização. Levou muito mais tempo do que eu esperava para buscar informações concisas sobre a história da Escrava Anastácia. Nas três primeiras buscas no Google, encontrei dados completamente diferentes, já que cada um dos sites me dava fragmentos de sua biografia, uma informação nova ou incongruente. Segundo a plataforma independente Wikipédia, ela nasceu em Pompeu no dia 12 de maio de 1740; alguns afirmam que tenha concedido milagres, sendo assim considerada uma figura religiosa, cultuada tanto no Brasil como em alguns países da África. O autor do artigo afirma que Anastácia “era uma mulher de rara beleza, que chamava a atenção de qualquer homem”2 e por se recusar a se deitar com um de seus senhores, foi condenada a usar a máscara de flandres pelo resto de seus dias.
A fonte das informações desse artigo é ainda mais curiosa: o site usado como referência se chama Bolsa de Mulher3, onde encontramos um artigo “mais aprofundado” acerca da história da Escrava Anastácia. Segundo o texto A beleza da escrava Anastácia, ela era filha de Delmira, trazida para o Brasil por volta de 1740; era princesa da tribo Bantú da família real de Galanga. O autor segue frisando a beleza de Delmira que, por conta disso, foi violentada por um homem branco, gerando Anastácia que possuía olhos azuis. Morreu no Rio de Janeiro em data desconhecida.
É visível a dificuldade imensa de encontrar algum documento oficial sobre a real biografia de Anastácia; por esse motivo, alguns pesquisadores nem mesmo acreditam em sua existência, alegando que a litografia de Etienne Arago seria apenas uma ilustração de um dos objetos de tortura. Esse fato só nos comprova o quanto esses silenciamentos foram calcados, gerando apagamentos, enterrando histórias, fazendo com que não saibamos afinal a realidade por trás da imagem, gerando mais questões do que respostas.
Em A Máscara, a teórica e artista Grada Kilomba faz um extenso apanhado de outras duas possíveis versões de sua biografia citadas no artigo Escrava Anastácia: The Iconographic History of a Brazilian Popular Saint de Jerome S. Handler e Kelly E. Hayesh:

No artigo de Handler e Hayes, conclui-se que
não há fundamentos para que a imagem produzida por Etienne Arago seja o retrato de
uma pessoa real. Sendo assim, todas as histórias encontradas sobre a escrava são uma
tentativa de legitimar sua existência, uma
forma de não esquecer as barbáries do passado.
A partir daqui, vamos lançar um olhar mais
aprofundado, analisando de múltiplos ângulos os fragmentos que envolvem a imagem
de Anastácia. Começando pelos textos encontrados de forma avulsa na internet – Wikipédia e Bolsa de Mulher –, nota-se fortes resquícios
de discursos colonizadores. Ambos os textos
mencionam sua beleza, atributos que atraiam
os olhares dos homens apontando seus aspectos físicos como raros, exóticos, termos atribuídos, na maioria das vezes, às mulheres negras
com a infeliz intenção de elogios, objetificando
e sexualizando esses corpos. O artigo A beleza
da escrava Anastácia relata que ela teria se recusado a fazer sexo com um dos senhores,
mantendo-se virgem. Essa informação entra
em contradição quando, ao falar sobre a concepção de Anastácia, o autor afirma que “era
comum à condição das escravas negras”4 serem violentadas. De fato, as escravas eram estupradas, não havia “sim” ou “não”, elas não
respondiam porque eram coisificadas, não
passando de objetos. A afirmação provém de
um ponto de vista católico de “pureza”, já que
na maioria das vezes as santas são “livres dos
pecados mundanos”, seguido da hipótese de
seus olhos serem azuis, fazendo com que fosse
ainda mais “especial” por carregar em sua genética traços de um homem branco.

Fig. 2 - Rosana Paulino, Autorretrato para comedores de terra, 1999.
nanquim sobre papel, 32 x 24 cm (Fonte: LOPES, Fabiana; PALMA, Adriana Dolci;
VOLZ, Jochen et al. Rosana Paulino: a costura da memória. São Paulo: Pinacoteca, 2018)
Quando questionamos o motivo de pensamentos como estes, vemos as heranças de
um passado marcado pela mancha da escravidão. Para além desses relatos, a imagem
da Escrava Anastácia se tornou símbolo de luta para muitos, expondo uma das torturas
mais cruéis da época. Ainda no artigo A Máscara, Grada Kilomba evoca a máscara de
Flandres como elemento principal para criar
uma ponte simbólica entre o objeto de tortura e a vontade ávida de silenciamento dos
negros. (Fig.1)
A máscara do silenciamento5
Feita com uma espécie de chapa de aço, a
máscara de flandres poderia variar cobrindo
o rosto todo ou somente boca. Parte desse
ferro ficava entre a língua e a mandíbula,
tendo um cadeado que era trancado por detrás da cabeça. A máscara servia para evitar
que os escravos comessem das plantações,
engolissem pepitas de ouro nas minerações
e também para evitar que eles ingerissem
terra para tirar sua própria vida. Kilomba
parte desse instrumento cruel para criar uma
metáfora sólida do que representa o objeto
no corpo da pessoa colonizada para o colonizador e o que reverbera desse ato físico
para o simbólico.
A máscara do silenciamento5
Feita com uma espécie de chapa de aço, a
máscara de flandres poderia variar cobrindo
o rosto todo ou somente boca. Parte desse
ferro ficava entre a língua e a mandíbula,
tendo um cadeado que era trancado por detrás da cabeça. A máscara servia para evitar
que os escravos comessem das plantações, engolissem pepitas de ouro nas minerações e também para evitar que eles ingerissem
terra para tirar sua própria vida. Kilomba
parte desse instrumento cruel para criar uma
metáfora sólida do que representa o objeto
no corpo da pessoa colonizada para o colonizador e o que reverbera desse ato físico
para o simbólico. Kilomba, em seu artigo, faz uma construção
sólida do significado do uso da máscara de
flandres nos escravos. A teórica percorre
desde a aparência física do objeto, o que ele
representa nesses corpos e como a partir
disso se pode tirar uma das bases do processo de colonização. Ela aponta a boca
como a principal forma de dominação do colonizador.
A máscara cobre a boca do sujeito, torturando-o, causando medo, dominando, a partir da dominação física, indo
para a dominação no campo simbólico e psicológico: a boca é o meio pelo qual nos expressamos, por onde respondemos e exprimimos nossas ideias e opiniões.
Tirar o direito de falar coibiria o colonizado de expressar-se, silenciando-o. Quem pode falar pode
ser ouvido por alguém, sendo ouvido se
torna pertencente, sendo pertencente da sociedade, ouvido e falante, o sujeito branco6
teria que admitir todo o processo brutal de
colonização, além das reverberações desse
período na contemporaneidade.

O fato é que esses silenciamentos soterraram
parte de uma história, se não toda ela; cobriram com terra todas as verdades ou pelo
menos o tentaram fazer. O simples fato de
encontrarmos diversas versões da história de
Anastácia ou o fato de que alguns nem sequer
acreditam que ela tenha existido já nos direciona para isso. A história que a silenciou, assim como a outros negros, nos impediu de saber o que aconteceu de uma outra perspectiva, sendo que o que nos restou são vestígios
de parte da história, contada pela perspectiva
do colonizador, do homem que pode falar e
ser ouvido, do que afirma e deslegitima as informações. Grada Kilomba afirma que ouvir o
colonizado é ter que entender, compreender
e saber da verdade; verdade essa que negam
porque serão deslocados de seu lugar de poder e de privilégio; ouvir é aceitar que o racismo existe de fato como uma ferida histórica que diariamente fingem não existir.
Oprime-se pela boca e, então, silencia-se
para que não seja necessário passar por todos esses processos.
A artista Rosana Paulino também trouxe a
máscara de flandres para seus trabalhos de
maneira a ilustrar os silenciamentos dos negros com um recorte de gênero. Paulino comenta em sua tese de doutorado Imagens
de Sombras (2011) que a priori o mote de
sua pesquisa no mestrado era a imagem
Castigo de Escravo. Partindo da imagem de Etienne Arago, a artista faria uma investigação gráfica e visual, releituras poéticas levantando questionamentos de como as práticas escravistas e a visão colonizadora
acerca das mulheres negras reverberam na
sociedade ainda hoje.
Paulino coloca seu corpo em cena quando
compõe uma série de desenhos em nanquim, retratando-se com máscaras africanas
e com a máscara de flandres. Identificamos
dois momentos desses estudos através dos
anos datados nos trabalhos. Em 1997, a artista cria Autorretrato para comedores de
terra e Autorretrato com gargalheira; ambos
são instrumentos de tortura, ambos os objetos são retratados na litografia de Etienne
Arago. Dois anos depois, Paulino compõe
mais três imagens, dessa vez intituladas Autorretrato com máscara africana. A artista
transporta para sua imagem, para seu corpo
e para si, memórias que não são dela, mas
que partem de seus ancestrais e, sendo assim, pertencem à sua história.
No primeiro momento, ela transporta para
seu próprio corpo as torturas que atravessaram gerações e chegaram até ela; no segundo momento, a artista se depara com as
heranças de seus antepassados. Podemos
até dizer que essas seriam as únicas heranças que mulheres como ela poderiam carregar consigo. (Fig. 2)
A série Bastidores traz imagens de diferentes
mulheres negras transferidas para o tecido,
no qual garganta, olhos e boca foram bordados grosseiramente. Paulino une elementos
do estereótipo feminino – como o uso do
bastidor e o bordado –, levantando questões
sobre a violência doméstica; as fotografias
apresentadas no trabalho são de mulheres
vítimas de abuso. Na obra percebemos os
desdobramentos dos desenhos em nanquim
direcionados para outros corpos e outras vivências, evocando outras mulheres para falar.
A artista usa o bordado como técnica, relacionando com suas memórias de infância,
quando sua mãe bordava para somar financeiramente nas despesas da casa. Em sua
tese de doutorado, Rosana Paulino tratou de
como seria impossível ignorar essas lembranças e não as incorporar em seus trabalhos de arte. O que a levou a levantar essas
questões foi o fato de a História da Arte que
conhecemos ser construída por uma perspectiva europeia, sendo colocada como “verdade oficial e absoluta”, o que fez com que
ela não se sentisse pertencente desse lugar
por não ver sua história representada nesse
universo em que estava se inserindo. Apesar de vermos hoje artistas que abordam em
sua obra temas como esse serem por fim reconhecidos – em doses homeopáticas –, alguns anos atrás o próprio sistema de arte
acabava por expulsá-los.
Nas instituições de ensino sempre nos colocam a perspectiva baseada em conceitos europeus. Pouco ouvi ao longo da minha formação sobre outros pontos de vista, ainda
menos no ensino superior; para mim, sempre foi uma questão. Quando me deparava
com a “História da Arte”, me questionava sobre como todas as coisas só poderiam ter
acontecido em um único continente sendo
que temos, além da Europa, cinco outros.
Levando em consideração que estou fazendo
um recorte, se olharmos para outros temas
não vemos representatividade, mais um reflexo de nossa história colonizada. (Fig. 3)
Em Descolonizando conhecimento: Uma Palestra-Performance de Grada Kilomba, a
teórica levanta questões, tais como “quem
produz o conhecimento?” “Para quem?” “E
quem o reconhece e legitima?” Todas as perguntas têm uma resposta em comum. Estão
às margens do conhecimento tudo que foi silenciado, assim como as possíveis histórias
da arte que não são reconhecidas porque
não são europeias. Os outros conhecimentos
não são pertencentes à nossa história, pois
o que não são ouvidas tão logo passam a
"não existir”. O silenciar é a tentativa de apagamento, se ninguém ouviu não se propaga,
o que não foi difundido “não aconteceu”.
Parte da história sempre fica por debaixo de
tudo e o que conhecemos é contado por quem
pode falar e ser ouvido, sendo a história da
humanidade marcada pelo patriarcado do homem branco.
Ainda nesse sentido que Grada Kilomba relata em sua palestra-performance que em
um dado momento uma mulher branca deslegitima sua fala por subverter as teorias de
determinados homens europeus.
Ainda que Kilomba e Paulino e tantas outras
mulheres negras ocupem o espaço acadêmico, ainda têm que se provar, enquadrar-se
nas “verdades” que já cansaram de reproduzidas as tantas pelas teses e dissertações.
São sempre os mesmos homens brancos europeus: Freud, Foucault, Deleuze e outros nomes que eu mesma nem sei escrever. Rosana
Paulino diz que mesmo que mulheres negras
cheguem a alcançar alto nível em sua formação, elas ainda são subestimadas. Grada
Kilomba aponta que os espaços acadêmicos
“têm uma relação muito problemática com a
Negritude”. (KILOMBA, 2016, p. 7)
Fig. 3 - Rosana Paulino, Sem Título da série Bastidores 1997.
fotocópia transferida sobre tecido, bastidor de madeira,
tecido e linha de costura, 30 cm
É partindo desses pensamentos e percepções que colocamos em dúvida a teoria de
que talvez Anastácia nem sequer tenha existido. Nunca vamos saber ao certo já que
quem detém o conhecimento, quem disse mina e quem o domina nunca teve o interesse em saber dessa versão da história, afinal, os negros eram apenas objetos, posses
de senhores brancos. Assim como a litografia
de Etienne Arago, quando homens e mulheres negras estiveram presentes em algum
“estudo científico” foi para fins de análises de
suas características físicas julgadas exóticas
e ao mesmo tempo ignóbeis. Apenas mais
um registro gráfico, sem contar a importância de sua história.
Através de uma investigação aprofundada
pelos registros fotográficos do período da escravidão, Rosana Paulino concluiu em 2013
um dos seus trabalhos mais impactantes. A
fotografia produzida pelo francês Auste Stahl
retrata uma mulher negra completamente
nua, de três ângulos diferentes. Em Assentamento, a artista resgata essa mesma imagem criando uma imensa instalação, ampliando-a em tecido e agregando elementos
gráficos. Um coração sob seu peito, um feto
em seu abdome e raízes saindo de seus pés.
Nessa obra, o corpo-objeto ganha significados sensíveis, elementos simbólicos que foram tomados da mulher retratada. Paulino
dá espaço para que essa mulher fale, enfim.
(Fig. 4).
Fig. 4 - Rosana Paulino, Assentamento, 2013.
instalação, impressão digital sobre tecido, desenho, linóleo, costura, bordado,
madeira, paper clay e vídeo (dimensões diversas)
Cidade Palimpsesto
O Complexo do Valongo foi o lugar criado
para afastar os escravos da região central da
cidade. Julgados como corpos abjetos e um
perigo para a saúde pública, os negros foram
removidos da área do Paço, região que se
tornou a porta de entrada da cidade logo que
a família da Coroa Portuguesa se mudou –
ou fugiu – para o Brasil, sendo o lugar em
que as pessoas vindas do continente europeu eram recepcionadas.
O Cais do Valongo logo virou o lugar mais
movimentado da cidade, atraindo pessoas
em busca de escravos nas “casas de carne”,
onde eram recepcionados. Em uma longa
travessia pelo Oceano Atlântico em navios
insalubres, muitos deles morriam no meio do
caminho, tendo seus corpos atirados ao mar;
os que chegavam com vida, logo não resistiam por conta das doenças contraídas durante a viagem. Poucos sobreviviam às terríveis condições que eram submetidos. Os
corpos dos negros mortos eram atirados em
uma vala coletiva, um reles buraco aberto no
chão, que quando já estava coberto por corpos, tinha terra jogada por cima para que o
depósito de novos corpos fosse possível.
A comercialização de escravos era muito
rentável para os traficantes, fazendo com
que mais e mais negros fossem sequestrados e trazidos para cá: adultos, idosos e até
mesmo crianças. Quanto mais lucravam,
mais negros eram traficados e assim milhares morreram em condições brutais. Tantos
eram os corpos que criaram o Cemitério do
Pretos Novos, uma vez que as antigas valas
já não eram o suficiente. Estima-se que a
delimitação desse espaço seja do tamanho
de um campo de futebol, porém não se sabe
ao certo. Depois de ser coberto com 60 centímetros de pavimento, o Cais do Valongo virou o Cais da Imperatriz, uma tentativa de
apagar os vestígios da crueldade, vestígios
da escravidão.
Por conta das Olimpíadas que o Brasil sediaria em 2016, as obras de revitalização na região portuária da cidade do Rio de Janeiro
começaram no ano de 2011. As obras do
chamado Porto Maravilha desenterraram
algo que muitos quiseram esquecer, fingir
que nunca aconteceu e outros até acreditam
que existiu um motivo para tamanha barbaridade. Em uma sobreposição de histórias de
colonizados e colonizadores, cava-se um
pouco e lá estão corpos que se queriam silenciar, apagar, esquecer. Emudecidos por terra
para sumir com o que eles podem contar, da
verdade que podem dizer.
Tira-os à força de seus países de origem, os
dominam como posse e os escravizam. Em
seguida, os “libertam”, mas sem base passam a viver em condições ruins nos chamados cortiços no centro da cidade. São removidos novamente, sobem os morros, afastando-os sempre, como se dessa forma fossem deixar de existir. É a cidade palimpsesto, apagando a história e escrevendo uma
outra por cima.
O fato é que não há como esconder por
muito tempo a verdade, o buraco causado
pela colonização é imenso e muito difícil de
pavimentar. Por mais que queiram silenciar,
o que aconteceu é um episódio concreto da
história, que volta e reivindica reparação;
aqui os mortos falam e é impossível aterrar
na tentativa de silenciar essas vozes. A memória volta para contar fragmentos das barbáries para não cair no esquecimento e,
quem sabe, para nos lembrar de não cometer tal atrocidade novamente. Estamos beirando a loucura nesses tempos difíceis, eu
mesma não duvido de nada, até porque em
alguns lugares do país a escravidão ainda
não acabou, sendo executada de maneiras
mais silenciosas, em lugares mais distantes
das grandes metrópoles.
Até hoje tentam silenciar vozes que se recusam a calar diante de injustiças, como o caso
recente da deputada Marielle Franco, executada em 2018. A boca que um dia foi silenciada fala ainda mais alto através de outras
vozes, mulheres como Grada Kilomba e Rosana Paulino que evocam essas vozes a se
pronunciar, não deixando jamais que sejam
caladas, esquecidas e apagadas. A máscara
de flandres e a imagem da Escrava Anastácia
não silenciam; pelo contrário, levantam
questões e fazem assim com que outras vozes questionadoras se elevem e tenham uma
reação. Aliás, já ouvimos muito a frase: “é
no silêncio que encontramos as respostas”.
Não existe silêncio absoluto, ele também cria
ruídos que se rebatidos, reverberam.
A opressão segue e nós seguimos também.
Existindo e resistindo.
Palavras finais
Nos últimos anos de nossa história, presenciamos mudanças revolucionárias na visão
da sociedade nas questões que permeiam as
problemáticas das minorias. Esses corpos
que por quase toda a história da humanidade
foram marginalizados, massacrados, divididos e calados, por fim – em doses muito pequenas –, vêm ocupando o seu espaço. Os
resultados que vemos agora não foram conquistados de um dia para o outro, são lutas
que partem de gerações, lutas em que muitos foram torturados, coibidos, explorados,
reprimidos, apagados, mortos e silenciados.
No chão dessa estrada de pedras há sangue
de milhares de indivíduos, vidas que foram
submetidas às situações mais sádicas, infestas e brutais. Pessoas que lutaram para sobreviver em meio a isso tudo, aquelas que se
negaram a calar a qualquer custo. Essas vidas
são a base para as batalhas de hoje e de todos os dias, batalhas essas que estão muito
longe de acabar.
Na mesma medida em que avançamos, uma
onda de conservadorismo nos deu uma rasteira no desejo que bocas amordaçadas e
olhos vendados continuassem desse jeito.
No ano de 2018, aparentemente século XXI,
ouvimos de muitos: “vocês vão voltar para a
senzala”, não que “frases” como essa fossem
algo novo. Mesmo que se tenha passado
mais de 500 anos desde o Brasil colonial,
resquícios da colonização ainda sobrevivem
sendo alimentados e são reflexos de uma
ideia bem arquitetada e difundida. A vontade
que se tem de nos manter calados ainda
persiste, por medo de perda de privilégios,
poder, controle; porém, acredito que o medo
da verdade é ainda maior. Não queremos esquecer de tudo e fingir que não aconteceu –
e acontece –, muito pelo contrário, queremos falar e ser ouvidos de outro ponto de
vista, do ponto de vista do oprimido. Nossos
corpos, vidas e memórias exigem o espaço
que nos foi tirado por meio de força e violência e, ainda que tenham tentado emudecer
nossas bocas e vozes, elas reverberam. Mulheres como Grada Kilomba e Rosana Paulino
resgatam, através da arte, a memória de seus
ancestrais, falam pelos que foram obrigados
a se calar, são propagações de gritos mudos.
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